Quatro décadas de tradução na PUC-Rio: 1968-2006

Marcia A. P. Martins
Pontifícia Universidade Católica – Rio de Janeiro.
martins@domain.com.br

A história dos cursos de formação de tradutores na PUC-Rio, bem como a atuação intensa da instituição no sentido de promover a valorização da tradução e da profissão de tradutor, estão indissociavelmente ligadas ao nome da professora Maria Candida Bordenave, que, com sua equipe, implantou o bacharelado e a especialização, promoveu inúmeros cursos de extensão, foi coordenadora da área durante quase 30 anos, formou várias gerações de tradutores e teve iniciativas extremamente importantes, como a criação do Encontro de Tradutores.

Em 1968, por iniciativa da então diretora do departamento, professora Amélia Maria Cavalcanti Lacombe, aproveitando a reforma universitária realizada naquele ano, foram criadas quatro habilitações no bacharelado em Letras, dentre elas, a de revisor-tradutorintérprete, com o objetivo de atender a novas perspectivas profissionais identificadas. A novidade atraiu muitos alunos e materializou-se em um currículo composto por disciplinas específicas da habilitação, aliadas a um elenco de disciplinas comuns às licenciaturas e aos recém-criados bacharelados em Letras. Nas palavras da professora Candida, o maior desafio no trabalho institucional foi “implantar um programa que satisfizesse as exigências da tradução e ao mesmo tempo se inserisse e se enquadrasse na estrutura do departamento de Letras da PUC, já estabelecido há décadas” (1996:431).

Desde então, o currículo e a própria habilitação sofreram várias mudanças até chegar ao formato atual, com foco exclusivamente na formação de tradutores – desde 1978 desvinculada da formação de intérpretes – por meio de um currículo sintonizado com o mercado de trabalho e as reflexões contemporâneas no campo dos estudos da tradução. Nos primórdios do curso, nos anos 1970, destacavam-se como importantes referências no curso de tradução da PUC-Rio os estudiosos Vinay e Darbelnet e Eugene Nida, além de Roman Jakobson e seu modelo de comunicação. Essa opção teórica é fácil de explicar, já que na época e influência da lingüística era muito forte e ainda não havia, como hoje, uma multiplicidade de abordagens e vasta bibliografia. Naquele momento, diferentemente do que ocorre hoje, a grade curricular não apresentava um forte componente teórico. Além disso, as disciplinas específicas subdividiam-se simplesmente em “tradução literária” e “tradução técnica”, sem outras modalidades. O grande interesse dos alunos era a tradução literária; graças aos convênios firmados entre a coordenação do curso e grandes editoras da época, como Artenova, Record e Francisco Alves, muitos livros foram traduzidos pelos bacharelandos, principalmente na área de ficção.

Já nas primeiras turmas a se graduarem havia novos tradutores-intérpretes dispostos a entrar em um mercado restrito, bastante fechado, composto por clientes que encaravam com desconfiança esses recém-formados. Um número significativo de graduandos se associaram formal ou informalmente, com a meta de conquistar a credibilidade do mercado para uma atividade marcada, de certa forma, pelo autodidatismo. Em entrevista para Cadernos de Tradução (1996), a professora Candida declarou que a experiência mais gratificante em sua atuação acadêmica foi ver as alunas “alçarem vôo, entrarem no mercado de trabalho, fundarem firmas de tradução” (p. 431).

Destacam-se, nessa década, duas iniciativas da professora Candida:

A partir do final da década de 1970, registraram-se mudanças profundas no campo do conhecimento provocadas pelas idéias pós-modernas e pós-estruturalistas, que impuseram uma série de contestações aos fundamentos do pensamento, da filosofia, das ciências sociais e das artes. Diante dessas novas maneiras de se pensar o mundo, a linguagem, a tradução e o ensino, o corpo docente do curso de tradução da PUC-Rio achou que a grade precisava refletir mais diretamente as mudanças ocorridas. Além disso, a rápida consolidação da área de Estudos da Tradução, que passou a desenvolver reflexões geradas em seu próprio bojo, reforçou a importância da teoria para a prática tradutória e para a formação profissional. À medida que aumentava a bibliografia disponível e que surgiam novas abordagens teóricas, os programas das disciplinas de prática de tradução da PUC-Rio iam incorporando essas reflexões, adotando uma postura metodológica que procurava embasar teoricamente as questões práticas enfocadas nas aulas.

Conseqüentemente, na reforma curricular seguinte, implementada em 1985, foram criadas as disciplinas Teoria da Tradução e Terminologia, além de uma monográfica que poderia contemplar modalidades de tradução técnica ou literária. Dessa forma, a teoria não só passou a iluminar as questões práticas nas aulas de tradução, como conquistou o seu espaço próprio.

No final dos anos 1980 o perfil da formação de tradutores na PUC-Rio ampliou-se de uma forma diferente, na medida em que passou a oferecer cursos em outros níveis além da graduação. Em 1988, foi criada a Coordenação de Cursos de Extensão em Letras, com o objetivo de fomentar as atividades de extensão dentro do próprio departamento. O primeiro projeto implementado foi o de formação de tradutores, com duração de quatro semestres, estruturado modularmente de modo a acompanhar a seqüência das disciplinas e o oferecimento da grade do bacharelado.

Um marco importante dessa década foi a iniciativa, também da professora Cândida e sua equipe, de realizar o II Encontro Nacional de Tradutores em 1985, dez anos depois do primeiro.

Assim, o curso de tradução da PUC-Rio chegou à década de 1990 oferecendo formação nos níveis de graduação e extensão. Em relação à profissionalização dos egressos, expandiram-se as parcerias destinadas a viabilizar os estágios, firmadas com os mais diversos tipos de empresa, especialmente editoras, escritórios de tradução e produtoras de vídeo. Para grande satisfação da coordenação do curso, constatou-se um altíssimo nível de absorção, pelo mercado, dos graduandos, que podem ser encontrados em escritórios de tradução, em empresas que contam com tradutores em seus quadros ou prestando serviços a pessoas físicas e jurídicas como autônomos. Além disso, continuou a tendência, registrada desde a implantação do curso, de os ex-alunos abrirem seus próprios escritórios de tradução e assim passarem, por sua vez, a absorver estagiários e tradutores recém-formados pela instituição.

Em 1997 foi criada a Especialização em Tradução Inglês-Português (pós-graduação lato sensu), para atender ao grande interesse por parte dos tradutores profissionais em buscar um aprimoramento e a familiarização com diferentes modalidades de tradução (como localização de softwares e tradução para cinema e vídeo) e áreas do conhecimento (como economia, medicina e saúde, etc.), além de uma formação mais propriamente teórica.

Em 2001, foi a vez da Pós-Graduação stricto sensu acolher os estudos da tradução; a reestruturação da área de Estudos da Linguagem do Programa de Pós-Graduação em Letras instituiu uma área de investigação em Estudos da Tradução nos níveis de mestrado e doutorado. A conseqüente formação de pesquisadores em tradução gerou, por seu turno, outro fenômeno: o aproveitamento dos novos mestres como docentes dos cursos de especialização e de formação de tradutores.

Essa atividade de formação nos mais variados níveis – graduação, pós-graduação lato e stricto sensu e extensão – começou a gerar, inicialmente a partir da criação da especialização, com sua exigência de monografia, e posteriormente com as pesquisas de mestrado e doutorado, um amplo e variado corpo de conhecimentos que vem sendo divulgado em congressos, seminários e eventos afins, bem como por meio de artigos publicados em periódicos e coletâneas. Diante dessa produção acadêmica intensa, a área de tradução da PUC-Rio sentiu que o momento era propício para criar um novo canal de divulgação para essas reflexões, às quais se somariam trabalhos de outros colaboradores. Assim nasceu Tradução em Revista, uma publicação de periodicidade anual cujo primeiro número, já esgotado, saiu em 2004.

Diante disso, o balanço da área nos últimos 35 anos nos parece bastante positivo, na medida em que a tradução na PUC-Rio foi ampliando seus espaços de modo a contemplar desde a formação e o aprimoramento de tradutores, nos níveis de graduação, extensão e pós-graduação lato sensu, até a formação de pesquisadores e a capacitação de professores, além de propiciar um meio de divulgação das pesquisas na área, com seu periódico, e de contribuir para promover a visibilidade da tradução e dos tradutores através da participação de seus docentes e discentes em congressos e seminários e da realização de eventos de pequeno porte. Nessa trajetória, tem sido fundamental o apoio de outras instituições, brasileiras e estrangeiras, com as quais mantemos um produtivo intercâmbio acadêmico. Para o futuro, a principal meta é continuar sempre aprimorando, atualizando e diversificando nossos cursos, procurando ajustá-los às necessidades existentes sem fugir de nossos princípios e filosofia, e também ampliar cada vez mais essa rede de relações que nos permite ajudar a viabilizar a absorção, pelo mercado de trabalho, dos tradutores e pesquisadores – entre os quais se incluem os docentes de tradução – formados pela universidade.

Referências Bibliográficas

BORDENAVE, Maria Candida (1996). Entrevista com Maria Candida Bordenave. Cadernos de Tradução no. III. Centro de Comunicação e Expressão, G.T. de Tradução, Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis: G.T. Tradução, pp. 429-35.

WYLER, Lia (2003) Línguas, poetas e bacharéis: uma crônica da tradução no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco.