João Azenha Junior
Universidade de São Paulo
azenha@usp.br
A tradução na Universidade de São Paulo tem sua presença marcada na produção intelectual dos docentes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFLCH) pelo menos desde a década de 1950. Nos anos de 1960 e 1970, antes de se concentrarem fundamentalmente na Faculdade de Letras – o que passa a ocorrer a partir de meados da década de 1970 –, as teses e dissertações envolvendo direta ou indiretamente a tradução encontram-se dispersas por áreas como Filosofia, História, Sociologia, Antropologia, Lingüística, Teoria Literária e também nas Letras.
Conforme este breve relato pretende demonstrar, um exame do momento fundador do Curso de Tradução à luz da produção intelectual de docentes e discentes nesse período revela a constituição de, basicamente, três eixos, a partir dos quais se têm estruturado desde então os Estudos da Tradução nessa Instituição: os trabalhos contrastivos nos diferentes níveis da análise lingüística para um par de línguas, os de literatura comparada e os que se referem ao ensino de línguas e literaturas estrangeiras. É no interior, portanto, da constituição dessas vertentes que surgiu e se desenvolveu o Curso de Especialização em Tradução (CETRAD).
Algumas datas
Criado em 1978 como modalidade da graduação – paralelamente ao bacharelado e à licenciatura –, o Curso de Tradução (doravante Curso) funcionou nesse modelo institucional até 1980, passando depois, em 1981, a Curso Extracurricular. Essa mudança, ao mesmo tempo em que propiciou a ampliação da carga horária de trabalho para 1200 horas/aula, tirou a tradução da estrutura curricular da Universidade e transformou-a em atividade de extensão. E assim, à margem dos estudos desenvolvidos no interior do currículo de Letras, a tradução permaneceu por mais de uma década. Ao longo desse período, e acompanhando a constituição do campo disciplinar específico dos Estudos da Tradução no Brasil, a tradução na USP ainda não possuía um perfil específico, sendo entendida, basicamente, como instrumento para o aprofundamento dos conhecimentos em língua estrangeira adquiridos pelos estudantes na graduação. Em vários momentos, o Curso chegou mesmo a ser considerado uma etapa de transição entre a graduação e a pósgraduação, durante a qual os candidatos à pós – sobretudo aqueles formados em línguas como o alemão – teriam oportunidade de aprofundarem seus conhecimentos na língua estrangeira, antes de iniciarem o programa de mestrado ou doutorado.
Em 1992, o Curso ganhou o status de Curso de Pós-Graduação lato sensu. Mesmo com a carga horária reduzida para 720 horas/aula, essa nova fase do curso marca o início da construção de uma identidade talhada pela interação, de um lado, com os Estudos da Tradução desenvolvidos no Brasil e no exterior, e, de outro, com os trabalhos desenvolvidos em áreas afins como os estudos lingüísticos e os estudos literários. Desse processo resultaram, como dissemos, os três eixos a que fizemos menção no início deste trabalho. Paralelamente a isso, a grande demanda pelo Curso – motivada, principalmente, pelas características do mercado de trabalho da cidade de São Paulo – incentivou o intercâmbio entre esse nível de formação e os estudos da pós-graduação stricto sensu, o que consolidou a presença da tradução em todos os programas de pós-graduação do Departamento de Letras Modernas. Disso resultou tanto o surgimento de novas linhas e projetos de pesquisa, quanto a publicação de trabalhos em parceria com editoras comerciais.
Em dezembro de 2004, uma Resolução da Reitoria da Universidade de São Paulo extinguiu todos os cursos de pós-graduação lato sensu da USP. O Curso de Tradução, a despeito de uma história de sucessos – são vários os prêmios importantes com que foram agraciados ex-alunos por seu trabalho como tradutores – não foi poupado. Atualmente, discutem-se alternativas para se salvar uma experiência de três décadas na formação de tradutores, entendidos estes como um público específico, que não tem a priori o objetivo precípuo de fazer pesquisa, mas que está preocupado em trocar experiências com a Universidade, a fim de aprimorar sua atuação no mercado de tradução local.
A moldura conceitual no surgimento
O livro Tradução: ofício e arte, de Erwin Theodor Rosenthal, obra de 1976 – publicada, portanto, dois anos antes da implantação do Curso –, constitui um ponto de referência para se ilustrarem as matrizes teóricas que nortearam seu momento fundador, visto que o autor – à época professor atuante na Área de Alemão e à frente de cargos de representação importantes – engajou-se ele próprio tanto na implantação do Curso, quanto na definição de suas diretrizes.
A obra procura sistematizar as experiências da prática de traduzir (a tradução como ofício), que foi a tônica das publicações sobre tradução no Brasil dos anos de 1960 e início dos anos de 1970 – conforme menção expressa do autor à pág. 11 –, bem como articular as reflexões nela contidas com as pesquisas desenvolvidas até então, no Brasil e no exterior, no campo dos estudos lingüísticos de base contrastiva e de literatura comparada (a tradução como arte).
Observadas diacronicamente, as bases do livro estão lançadas naquilo que hoje poderíamos chamar de visão essencialista de tradução. Considerado, porém, na relação com seu entorno, o livro reúne, em grande medida, a fortuna crítica dos não numerosos estudos de e sobre tradução publicados até então: as referências bibliográficas trazem obras de Mounin (1965, 1967, 1975), Nida (1964), Störig (1963), Levy (1969), Kapp (1974), Kloepfer (1967), dos brasileiros Paulo Rónai (1956, 1976) e Brenno Silveira (anos de 1960), além de lingüístas alemães como Glinz (1970), Moser (1970), Seidler (1963), Steger (1970), Weinrich (1966), Weisgerber (1954), Wuthenow (1969).
Ademais, o livro tem como modelo inspirador a obra de Mario Wandruska – Sprachen – vergleichbar und unvergleichlich (1969), a quem, inclusive, o livro de Rosenthal é dedicado. Ratificando esse mesmo quadro teórico, o livro de Wandruska, por sua vez, toma por base o livro Linguistique génerale et linguistique française, de Charles Bally (3ª. ed., Berna, 1950), mas também Vinay & Darbelnet (1958), Mounin (1963, 1965), Nida (1964), além de trabalhos de lingüística descritiva e contrastiva de autores alemães.
Assim, embora a fortuna crítica presente no livro passe ao largo de contribuições importantes para os Estudos da Tradução no Brasil, como o trabalho dos irmãos Campos, por exemplo, ele reúne bases conceituais e metodológicas, que marcaram esse momento fundador, conforme atestam algumas definições de tradução e de traduzir extraídas da Introdução13:
Traduzir significa aqui realmente interpretar, e um dos propósitos deste volume será demonstrar quão importante é a interpretação correta do texto original pelo tradutor, para que o mesmo possa ser devidamente compreendido pelos leitores (p. 13).
Já muito cedo percebeu-se também que a imperfeição de traduções reside em três causas, essencialmente: (I) – O insuficiente domínio das duas línguas pelo tradutor; (II) – As insuficientes correspondências entre os dois idiomas; (III) A imperfeição intrínseca de cada idioma (p. 14).
O problema central da tradução de línguas naturais consiste em manter o sentido (p. 15, apud Oettinger, 1960).
A atenção principal deve aqui incidir, entretanto, na tradução literária. O problema da transferência da obra de arte de um idioma para outro (...) gira quase sempre em torno das opiniões de qual a melhor maneira de chegar, dentro dos limites relativos de uma tradução aproximadamente fiel, a uma correspondência da obra de arte, que permita ao leitor estrangeiro apreciar todos os matizes próprios do original (p. 18).
A tradução não consiste, portanto, simplesmente, na transferência de um código monossistemático para outro do mesmo tipo, mas de um processo de procura de equivalências entre desvios, por vezes extremamente complicados, desses códigos, que vêm a ser polissistemáticos (p. 20).
Ao mesmo tempo em que refletimos acerca dessas dificuldades, damo-nos conta da importância, para a tradução, do seu embasamento teórico, a fim de que, dele partindo, possam ser encontradas regras básicas para a solução prática das mesmas (p. 20).
O próprio ato da tradução consiste em transferir uma comunicação determinada, expressa em um idioma definido, de tal maneira que ela surja de modo idêntico em outro. Considerando as distintas condições fundamentais entre os idiomas pretendidos, será necessário adaptá-las de tal forma que na tradução ‘surja um eco da expressão original’ (p. 20, com nota referente a Benjamin).
De qualquer forma, cumpre ressaltar a necessária relação entre o tradutor e o autor do original, no sentido de que aquele deve conhecer as intenções deste, tendo-se assenhoreado de um conhecimento adequado do assunto tratado, e entre o tradutor e o público leitor visado, de tal maneira que lhe seja possível veicular as informações contidas no original de uma forma pertinente e inteligível (p. 21).
Portanto está claro que traduzir não significa exclusivamente substituir palavras de um idioma por palavras do outro, mas transferir o conteúdo de um texto com os meios próprios da outra língua (p. 21).
Relidas hoje, as citações evidenciam aspectos que viriam a ser fortemente criticados por vertentes dos Estudos da Tradução surgidas nas décadas subseqüentes: a noção de um sentido intrínseco ao texto e dissociado da intervenção do leitor, a separação entre sujeito e objeto, teoria e prática e – como decorrência disso – a apologia das noções de fidelidade e equivalência, só para citar alguns aspectos. Entendidas, porém, no interior da proposta que norteava a criação do Curso e que, como dissemos, sublinhava o papel instrumental da tradução (reservando tão somente ao poeta-tradutor alguma margem de liberdade na empreitada de traduzir poesia), as citações não apenas servem de moldura a esse projeto, como também lhe servem de alicerce.
Ademais, um brevíssimo exame da produção docente e discente da Instituição à época, revela que tais perspectivas teóricas estavam em sintonia com essa produção.
Os trabalhos arrolados a seguir – selecionados de forma inevitavelmente subjetiva – são apenas alguns exemplos da produção acadêmica direta ou indiretamente relacionada à tradução na FFLCH-USP, apresentada aqui por títulos de teses e dissertações defendidas entre meados dos anos de 1950 e 1979.
O primeiro item a se observar diz respeito à dispersão desses estudos, o que não apenas confirma a epígrafe de Rosenthal (1976), mas também atesta que o exercício de traduzir, entendido aqui de forma ampla e intrinsecamente relacionado aos mecanismos de produção de sentido em linguagem, foi incorporado, desde muito cedo, à agenda das diferentes faculdades que compõem a FFLCH-USP14.
Área: Filosofia: a tradução como apresentação de parte da obra de filósofos; interface com os estudos literários; questões de filosofia da linguagem.
Área de História: estudos comparados com ênfase para questões de imagologia; interface com os estudos literários; estudos descritivos do léxico e da linguagem.
Área de Semiótica e Lingüística Geral: além de numerosos estudos descritivos do português nos diferentes níveis da análise lingüística e de estudos na interface da língua e literatura 15, encontram-se aqui trabalhos de base contrastiva envolvendo um par de línguas:
Área de Letras Clássicas: paralelamente aos trabalhos que, como na Área de Filosofia, apresentam parte da obra de autores clássicos em traduções comentadas, verifica-se aqui a presença de trabalhos descritivos das línguas clássicas, especialmente do latim:
Área de Literatura Portuguesa: além dos estudos que exploram aspectos lingüísticos em obras da literatura, há também estudos de literatura comparada, anteriores à década de 1970:
Departamento de Letras Modernas
Área de Língua e Literatura Alemã: nos estudos literários, destacam-se os trabalhos que utilizam corpora compostos de traduções; nos estudos lingüísticos, os estudos contrastivos português-alemão:
Área de Francês: predominam os estudos contrastivos francês-português, a tradução comentada de obra literária aparece como dissertação de mestrado e verifica-se a presença da aplicação dos estudos contrastivos ao ensino de francês como língua estrangeira:
Área de Italiano: estudos contrastivos no campo da literatura e da língua:
Área de Inglês: no campo dos estudos literários, trabalho pioneiro de análise e crítica de tradução, além de estudos de base contrastiva:
Área de Espanhol: No nível do doutorado, um estudo de base contrastiva:
Departamento de Línguas Orientais
Área de Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaica: no período coberto por este estudo, verifica-se a presença de um estudo contrastivo:
Área de Literatura e Cultura Russa: um estudo de base comparativista e uma tradução seguida de notas:
Teoria Literária e Literatura Comparada: além de numerosos estudos contrastando sistemas literários17 e, inclusive, envolvendo universos sígnicos diferentes do verbal (música, dança, poesia, quadrinhos), há trabalhos que enfocam aplicações ao ensino.
Considerações finais
Este breve exame da produção acadêmica e das matrizes teóricas no momento de surgimento do Curso de Especialização da USP (1978) permite ver que a tradução, sob diversas perspectivas, esteve presente desde os primeiros trabalhos de grau realizados na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Como o exame da produção focaliza apenas a década de 1970 e anteriores, não se pode, obviamente, ter uma visão clara dos desdobramentos desse momento inicial nas décadas subseqüentes. Contudo, esse momento fundador evidencia a presença da tradução na agenda da Faculdade e permite que se vislumbrem traços que têm marcado a produção docente e discente no domínio da tradução, mesmo depois de esta ter se constituído em área disciplinar no Brasil.
As matrizes teóricas, no interior da qual se enquadra a criação do Curso, podem ser inferidas a partir da obra de Rosenthal (1976) e de sua relação com a produção nacional dos anos de 1960. A despeito de toda a crítica que se possa fazer retrospectivamente a esse quadro, fato é que ele é muito bem definido: recupera uma fortuna crítica brasileira e estrangeira sedimentada até então, não apenas no que respeita à produção de livros, mas também de periódicos específicos da área que então se constituía. Ademais, os dados apresentados são atuais para a década de 1970 e são também idôneos: para suas reflexões, o autor faz uso, por exemplo, do Index Translationum, que havia sido retomado em 1948 com o apoio financeiro da UNESCO (cf. p. 15).
O cruzamento das reflexões contidas no livro com a produção da época na FFLCHUSP permite que se identifiquem, basicamente, três eixos sobre os quais os Estudos da Tradução se desenvolveram nessa Instituição: (1) os estudos descritivos e contrastivos (nos diferentes níveis da análise lingüística), (2) os estudos comparados e ligados à Imagologia (recepção e crítica de obras literárias) e (3) a aplicação de tais estudos ao ensino das línguas estrangeiras dos diferentes Departamentos, este último aspecto justificado por tradição de longa data no ensino de línguas e literaturas estrangeiras.
Revendo o passado e tendo vivenciado, como aluno e como docente, as evoluções posteriores – do início dos anos de 1980 até a presente data – caberiam ainda duas observações finais: em primeiro lugar, pessoalmente não percebo rupturas nessa evolução, mas sim uma linha de continuidade que se atualiza constantemente, à medida que incorpora e se adapta às novas conquistas das áreas de saber correlatas. Isso significa que as transformações operadas nos estudos lingüísticos e literários desde então têm provocado mudanças de enfoque nos eixos citados acima, sem, contudo, resultarem em mudanças substanciais em seus rumos. Em segundo, a produção docente e discente no campo dos Estudos da Tradução, intensa e qualificada desde os anos de 1970, tem sua visibilidade como conjunto sombreada por um recorte institucional que separa departamentos e programas de pós-graduação por língua e literatura. Tal fato, associado à multiplicação e à diversificação de trabalhos surgidos no Brasil a partir dos anos de 1990, só reforça a necessidade da implantação de um banco de dados sobre a produção acadêmica brasileira nos Estudos da Tradução, que faça jus a esse passado e, no conjunto da produção de outras instituições, trace um panorama dos Estudos da Tradução no Brasil o mais diversificado possível. Um projeto para o qual o GT de Tradução da ANPOLL ainda tem decisiva contribuição a prestar.
Referências bibliográficas
ROSENTHAL, Erwin Theodor – Tradução: ofício e arte. São Paulo, Cultrix/EDUSP, 1976.
WANDRUSKA, Mario – Sprachen: vergleichbar und unvergleichlich. München, R. Piper & Co. Verlag, 1969.
Catálogo de Teses e Dissertações 1942-1997. Comissão de Pós-Graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo, Xamã VM Editora e Gráfica Ltda., 1998.
Departamento de Letras Modernas. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo. Dissertações e Teses 1950-2004. Catálogo organizado pela profa. Dra. Eloá Di Pierro Heise e Sra. Edite dos Santos nascimento Mendez Pi, como parte dos eventos comemorativos aos 70 anos da FFLCH-USP.